"Solidão é lava que cobre tudo

Amargura em minha boca
Sorri seus dentes de chumbo

Solidão palavra cavada no coração
Resignado e mudo
No compasso da desilusão"

                                                             Paulinho da Viola

 

A pandemia e a quarentena escararam "A Solidão nossa de cada dia". Além da solidão em si, já não temos as distrações esporádicas que nos fortalecem pra seguir com as dificuldades normais do dia a dia. Alguns de nós são tomados do desânimo, tristeza, ansiedade e, à vezes, até de pensamentos obsessivos. Quanto esforço nos exige esse desafio! Como manter a saúde mental nessa pandemia?

Mas, a solidão de que falo aqui não é só aquela em que a pessoa, realmente, está só, mas é também aquela em que mesmo acompanhada, a pessoa se sente incompreendida, desencaixada, não consegue construir vínculos ou sustentar relacionamentos afetivos de parceria e confiança mútua. 

​“Estar sozinho” é sentido de maneira diferente por cada um: enquanto alguns desejam ficar sós e apreciam este momento como uma oportunidade de encontro consigo, para outros pode ser muito assustador e angustiante, com uma sensação de tristeza profunda e vazio. "É um frio na Alma!", como uma vez ouvi no consultório.

​Independentemente de estarmos sós ou acompanhados, o sentimento de solidão se dá quando nos vemos impossibilitados de conectarmos aos outros e nos percebemos em nossa própria companhia. A questão é por que estarmos em nossa própria companhia traz tamanho sentimento de angústia, de vazio na alma? Na sequência, a pergunta é, e por que me encontro só, por que não tenho boas companhias?

Essas são algumas das questões trabalhadas em análise, assim como outras questões que o próprio paciente pode trazer. Além de trabalharmos todas essas indagações, também ofereço um espaço de acolhimento dessa dor e sofrimentos vividos atualmente pelo paciente, sem que ele se sinta julgado.

Ao longo do processo de análise, o paciente vai entrando em contato com sua própria história, seu modo de lidar com as dificuldades, com as pessoas, a maneira que faz escolhas, enfim, o modo como tem vivido suas experiências. Essas observações ajudam a pessoa a perceber como ela vai conduzindo sua vida e de como ela chegou nesse contexto que a deixa tão solitária. Com essa compreensão, o paciente se vê mais capacitado a construir uma vida mais saudável e satisfatória para si mesmo.

Além disso, a análise também tem como um dos seus objetivos acompanhar o paciente na construção de um sentido para sua vida, o significado de seus sofrimentos e tornar suportável as pequenas infelicidades inevitáveis da vida cotidiana. Outro objetivo importante na análise é ampliar as possibilidades na vida do paciente, de modo a se libertar de fixações que o levam ao sofrimento. Essas construções apontariam para seu bem-estar ou se assim quiser chamar, de "felicidade", por que não?

SOLIDÃO